NAT — Network Address Translation
O que é
NAT (Network Address Translation) é o mecanismo que permite a um roteador modificar o endereço IP de origem e/ou destino de um pacote enquanto ele transita entre redes. Na prática, é o que torna possível que dezenas de dispositivos de um escritório ou de uma casa brasileira acessem a internet usando um único endereço IP público.
A existência do NAT está diretamente ligada a um problema estrutural do IPv4: o protocolo foi projetado nos anos 1970 com um espaço de endereçamento de 32 bits — cerca de 4,3 bilhões de endereços. Com a explosão de dispositivos conectados, esse espaço se esgotou. A solução de longo prazo é o IPv6, mas a migração global é lenta. Enquanto isso, duas medidas paliativas sustentam o IPv4 até hoje: o CIDR (que eliminou o desperdício das classes de endereçamento) e o NAT.
Endereços privados — RFC 1918
O documento RFC 1918 reservou três blocos de endereços IPv4 para uso interno, sem necessidade de registro. Qualquer organização pode usá-los livremente em sua rede:
| Bloco | Faixa |
|---|---|
| 10.0.0.0/8 | 10.0.0.0 – 10.255.255.255 |
| 172.16.0.0/12 | 172.16.0.0 – 172.31.255.255 |
| 192.168.0.0/16 | 192.168.0.0 – 192.168.255.255 |
Provedores de internet (ISPs) descartam pacotes cujo endereço de origem ou destino pertença a essas faixas. Por isso, nenhum dispositivo com IP privado consegue se comunicar diretamente com a internet — é aí que o NAT entra.
Como funciona
O NAT opera no roteador que faz a fronteira entre a rede interna (inside) e a rede externa (outside). Antes de entender os tipos de NAT, é fundamental dominar a terminologia:
| Termo | Definição |
|---|---|
| Inside local | Endereço IP real do host interno (geralmente privado), visto de dentro da rede |
| Inside global | Endereço IP do host interno após a tradução (geralmente público), visto de fora |
| Outside local | Endereço IP do host externo visto de dentro da rede |
| Outside global | Endereço IP real do host externo (sem tradução de destino, igual ao outside local) |
A lógica é: inside/outside indica onde o host está; local/global indica a perspectiva de quem observa.
NAT estático
Mapeamento manual e permanente de um endereço privado para um endereço público, na proporção 1:1. Enquanto o mapeamento existe, o roteador sempre traduz aquele IP específico, em ambas as direções — ou seja, hosts externos podem iniciar conexões com o host interno usando o endereço público mapeado.
Exemplo: A empresa Tecnet Soluções tem um servidor de e-mail interno com IP 10.0.0.10. O administrador configura o NAT estático para que esse servidor seja acessível externamente pelo IP 200.150.10.5. Qualquer cliente da internet que se conectar a 200.150.10.5 será redirecionado para 10.0.0.10.
Limitação: como é 1:1, não economiza endereços públicos.
NAT dinâmico
O roteador mantém um pool de endereços públicos disponíveis e faz os mapeamentos automaticamente conforme a demanda. Quando um host interno inicia uma conexão, o roteador atribui um IP público do pool. Quando a sessão encerra, o endereço volta ao pool para outro host usar.
Também é 1:1 — mas temporário. Se o pool tiver 10 endereços e houver 11 hosts tentando acessar a internet ao mesmo tempo, o 11º pacote é descartado. Esse estado é chamado de NAT pool exhaustion.
PAT — Port Address Translation (NAT overload)
PAT é o tipo mais comum de NAT no mundo real. Em vez de alocar um IP público por host, o roteador usa um único IP público para todos os hosts internos ao mesmo tempo, diferenciando os fluxos pelo número de porta da camada 4 (TCP/UDP).
Como funciona:
- PC-1 (10.1.1.10, porta origem 50001) e PC-2 (10.1.1.11, porta origem 50001) enviam requisições ao servidor.
- O roteador traduz ambos para o mesmo IP público (ex.: 200.150.10.1), mas altera a porta de origem do PC-2 para 50002 para evitar conflito.
- Quando as respostas chegam, o roteador usa a porta de destino para saber para qual PC interno reencaminhar.
Portas TCP/UDP têm 16 bits, o que permite mais de 65.000 fluxos simultâneos por endereço IP público. Por isso, o PAT é a razão pela qual uma residência inteira acessa a internet com um único IP público da operadora.
Na prática
Configuração do NAT estático no IOS
R1(config)# interface GigabitEthernet0/1
R1(config-if)# ip nat inside
R1(config)# interface GigabitEthernet0/0
R1(config-if)# ip nat outside
! Mapeamento: servidor interno 10.0.0.10 → IP público 200.150.10.5
R1(config)# ip nat inside source static 10.0.0.10 200.150.10.5 Configuração do NAT dinâmico
R1(config)# access-list 1 permit 192.168.1.0 0.0.0.255
R1(config)# ip nat pool POOL-CORP 200.150.10.1 200.150.10.10 netmask 255.255.255.0
R1(config)# ip nat inside source list 1 pool POOL-CORP Configuração do PAT (overload) usando IP da interface
R1(config)# access-list 1 permit 192.168.1.0 0.0.0.255
! O roteador usa o próprio IP da interface externa — sem necessidade de pool
R1(config)# ip nat inside source list 1 interface GigabitEthernet0/0 overload Verificação
R1# show ip nat translations
! Exibe a tabela NAT com inside local, inside global, outside local, outside global
R1# show ip nat statistics
! Resumo: total de traduções ativas, interfaces inside/outside, hits e misses
R1# clear ip nat translation *
! Remove entradas dinâmicas (entradas estáticas permanecem) Saída típica de show ip nat translations com PAT:
Pro Inside global Inside local Outside local Outside global
udp 200.150.10.1:50001 192.168.1.10:50001 8.8.8.8:53 8.8.8.8:53
udp 200.150.10.1:50002 192.168.1.11:50001 8.8.8.8:53 8.8.8.8:53 Perceba: dois hosts internos com a mesma porta de origem são diferenciados pela porta do inside global.
Por que cai no exame
O CCNA cobra NAT com frequência porque envolve tanto conceito quanto configuração e troubleshooting. Os pontos mais testados são:
- Identificar os quatro termos (inside local, inside global, outside local, outside global) a partir de um diagrama de fluxo de pacotes. É o erro mais comum: confundir "local" com "privado" — nem sempre são sinônimos.
- Diferença entre NAT estático, dinâmico e PAT: o exame apresenta cenários e pede qual tipo é mais adequado. PAT é a resposta certa quando o objetivo é economizar IPs públicos.
- NAT pool exhaustion: quando o pool dinâmico está cheio, o roteador descarta o pacote — não redireciona, não enfileira.
- ACL em NAT dinâmico/PAT: a ACL identifica o tráfego a ser traduzido. Um endereço negado pela ACL não é traduzido, mas também não é descartado pelo NAT — apenas passa sem tradução. Isso é diferente de aplicar a ACL com
ip access-groupem uma interface.
- Keyword
overload: sem ela,ip nat inside source list … pool …é NAT dinâmico 1:1. Comoverload, é PAT. O exame testa se o candidato nota a presença ou ausência dessa palavra.
- NAT não é firewall: o NAT cria uma separação entre redes, mas não inspeciona nem filtra tráfego por si só. Questões recentes exploram esse equívoco.
show ip nat translationsvsshow ip nat statistics: saber interpretar a saída de ambos é exigido.
Resumo em uma linha
NAT permite que hosts com endereços privados acessem a internet traduzindo seus IPs (e, no caso do PAT, também as portas) para endereços públicos — sendo o PAT a variante mais usada no mundo real por permitir que centenas de dispositivos compartilhem um único IP público simultaneamente.